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Início - ALIMENTAÇÃO - Sem reajuste em 36% dos restaurantes, a precificação de cardápio decide a margem
ALIMENTAÇÃO

Sem reajuste em 36% dos restaurantes, a precificação de cardápio decide a margem

Lara Pereira22/10/202600
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Homem de avental e óculos confere uma folha impressa e faz anotações numa prancheta sobre o balcão de um restaurante
Revisar custos de insumos antes de mexer nos preços é o primeiro passo de uma precificação de cardápio que protege a margem.
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A precificação de cardápio virou o principal instrumento de margem para bares e restaurantes que não conseguem subir preço. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) sobre julho de 2026, 36% dos estabelecimentos não reajustaram o cardápio e só 42% tiveram lucro, o que desloca a disputa pela margem para o custo de cada prato.

O que o levantamento da Abrasel mostra sobre preços e lucro em julho?

O levantamento mostra um setor com repasse travado, em que a maioria reajustou pouco ou nada e menos da metade lucrou.

De acordo com a Abrasel, 57% dos estabelecimentos reajustaram os preços no máximo pela inflação e apenas 7% subiram acima dela em julho de 2026, enquanto 37% dos negócios ficaram em equilíbrio e 20% registraram prejuízo, segundo reportagem do ES Hoje publicada em 15 de setembro.

Indicador da pesquisa AbraselJulho de 2026
Não conseguiram reajustar o cardápio36%
Reajustaram até a inflação ou abaixo dela57%
Reajustaram acima da inflação7%
Tiveram lucro42%
Ficaram em equilíbrio37%
Registraram prejuízo20%
Tinham contas em atraso37%

Lido pelo lado do dono de restaurante, o quadro indica que subir preço deixou de ser a saída padrão.

A fatia com lucro foi a melhor desde dezembro de 2025, segundo a mesma pesquisa da Abrasel, mas 37% dos estabelecimentos seguiam com contas em atraso em julho de 2026.

A melhora no resultado convive, portanto, com caixa apertado.

Marcelo Uliana, presidente da seccional da Abrasel no Espírito Santo, resume o problema ao afirmar que “o empresário pode vender mais e, ainda assim, não conseguir ampliar a margem”.

Para quem opera salão e delivery, a frase aponta onde olhar primeiro, e a precificação de cardápio entra como ferramenta de controle do custo de cada item vendido.

Por que 36% dos restaurantes não conseguem reajustar o cardápio?

O reajuste trava porque o cliente sente o aumento e a concorrência local segura o preço de referência do bairro.

Quando o consumidor compara o prato com o da casa vizinha ou com a última conta que pagou, cada real a mais pesa na decisão de voltar, e o dono de restaurante prefere absorver parte da alta dos insumos a perder frequência, o que corrói a margem aos poucos sem aparecer no caixa do dia.

O dado de 57% reajustando só até a inflação reforça esse limite, segundo a Abrasel em julho de 2026. Mesmo quem conseguiu mexer no preço apenas repôs a perda, sem abrir espaço novo de margem.

Por isso a precificação de cardápio passa a depender menos do número impresso e mais do custo que existe por trás dele. O preço vira consequência de uma conta bem feita, e não o primeiro botão a ser apertado.

O que entra na precificação de cardápio quando o preço não pode subir?

Entram o custo da ficha técnica, as despesas fixas, os impostos, as taxas de pagamento e, no aplicativo, a comissão.

A ficha técnica é o documento que lista cada ingrediente do prato com quantidade, perda no preparo e custo de compra, e a soma dela forma o CMV (Custo de Mercadoria Vendida), a base sobre a qual o restaurante acrescenta as despesas do negócio e a margem que quer obter.

Cada prato do cardápio precisa cobrir cinco camadas de custo.

  1. Custo da ficha técnica, com ingredientes, embalagem e perdas do preparo.
  2. Despesas fixas rateadas, como aluguel, folha de pagamento, energia e gás.
  3. Impostos sobre a venda, conforme o regime tributário do negócio.
  4. Taxas de pagamento, cobradas pelas maquininhas de cartão no salão.
  5. Comissão e taxas da plataforma, quando o pedido sai por aplicativo de delivery.

Com o preço travado, a revisão da precificação de cardápio começa pela primeira camada. Ingrediente que subiu, porção que cresceu sem controle e desperdício na produção aparecem na ficha técnica antes de aparecer no resultado do mês.

Atualizar a ficha de cada prato mostra quais itens ainda pagam a conta e quais vendem no prejuízo. Essa lista orienta a decisão sobre o que manter, o que ajustar na porção e o que tirar do cardápio.

Como o delivery muda a conta de margem de cada prato?

No aplicativo, a comissão da plataforma sai do mesmo preço, então o prato que dá lucro no salão pode empatar no delivery.

Na página de parceiros do iFood, a plataforma informa comissão de 12% sobre pedidos no plano em que o restaurante faz a própria entrega e de 23% no plano com entrega da plataforma, além de taxa de 3,2% sobre pedidos pagos pelo aplicativo, valores consultados em outubro de 2026.

Lida pelo lado do restaurante, a comissão incide sobre o valor total do pedido.

Um item com margem apertada no salão pode zerar o ganho no aplicativo, enquanto custos fixos por pedido, como a embalagem, pesam menos em pedidos de valor maior.

O mesmo prato, portanto, pede preço, porção ou embalagem pensados para cada canal. Montar um cardápio de delivery com os itens que sustentam margem mesmo depois da comissão é uma decisão de mix, e não só de preço.

Antes de ativar uma promoção no aplicativo, a precificação de cardápio pede que a conta do prato seja refeita com desconto, comissão e taxa juntos. Desconto aplicado sobre um item que já estava no limite transforma volume em prejuízo, o mesmo risco apontado pela entidade do setor no Espírito Santo.

Consultoria aplica dados de vendas à margem do delivery

Análise de dados de vendas é o caminho usado por consultores do setor para achar margem sem depender de promoção.

Um dos profissionais que atuam nesse espaço é Vanfer Brito, fundador da GT Consultoria de Restaurantes, que soma mais de 15 anos de experiência no mercado de alimentação e ajuda donos de restaurantes e negócios de alimentação de todo o Brasil a melhorar vendas, margens, gestão e desempenho no delivery.

O trabalho da consultoria para restaurantes envolve análise de dados de vendas, estratégias de cardápio e promoções, posicionamento em plataformas de delivery, atendimento, entrega, operação e acompanhamento de equipes.

É o tipo de leitura que mostra ao dono quais pratos sustentam o resultado e quais só ocupam espaço no cardápio digital.

Na visão de Vanfer Brito, vender mais no delivery não depende apenas de promoções.

Para o consultor, o resultado vem da combinação entre análise de dados, estrutura do cardápio, margem, experiência do cliente e execução operacional, o que conversa com o cenário de repasse travado descrito pela Abrasel.

O que o dono de restaurante pode revisar no curto prazo?

Dá para revisar ficha técnica, mix de vendas, porções e o cardápio de cada canal antes de mexer no preço.

Essas revisões não exigem reajuste e atacam justamente as camadas de custo que a precificação de cardápio costuma deixar de lado, como o desperdício na cozinha, os pratos que vendem muito com margem baixa e as promoções lançadas no aplicativo sem refazer a conta da comissão.

  1. Atualizar a ficha técnica dos pratos mais vendidos com o custo de compra mais recente dos ingredientes.
  2. Cruzar custo e volume de vendas para identificar os itens que vendem muito e deixam pouca margem.
  3. Padronizar porções e preparo para reduzir a perda de insumos na produção.
  4. Separar o cardápio por canal, mantendo no aplicativo os pratos que suportam comissão e taxa de pagamento online.
  5. Refazer a conta antes de cada promoção, somando desconto, comissão e taxa ao custo do prato.

Nenhuma dessas medidas promete lucro imediato, e o efeito depende do perfil de cada casa.

Com 36% do setor sem conseguir reajustar em julho de 2026, segundo a Abrasel, olhar para dentro da operação é o caminho que segue disponível para o dono de restaurante proteger a margem.

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